Mostrando postagens com marcador indignação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador indignação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A segunda experiência

Em torno das quatro semanas e meia o embriãozinho parou de se desenvolver... Em torno das seis semanas (pelos meus cálculos) ou oito semanas (pelo cálculo padrão pela última data da menstruação) eu comecei a sangrar. Houve, quem dissesse que era nidação, e ainda quem dissesse que era ficar em repouso que tudo ficaria bem, a gravidez prosseguiria. Mas ao ver o ultrassom e essa incompatibilidade, eu ja sabia, era aborto.

Ao contrário da outra vez, essa eu pude acompanhar com mais consciência, consegui perceber o que havia acontecido e isso me deixou mais calma com o processo todo. Era uma gestação anembrionada, não havia nada dentro do saco gestacional e ele simplesmente parou ali, em quatro semanas. E, naturalmente o corpo entendeu e mandou pra fora.
Os médicos daqui de Ubatuba são muito mal preparados, ou mal atualizados, ou sei lá o quê. No posto onde estava acompanhando o pré-natal disseram que eu deveria fazer uma curetagem (procedimento cirúrgico para retirar qualquer vestígio de gravidez de dentro do útero, é usada anestesia e um tipo de "raspagem" manual uterina) com urgência, ninguém me deu diagnóstico de nada, ninguém se preocupou em me explicar nada, além do fato de que eu iria com certeza ter uma infecção e perderia meu útero. Precisei de atestado médico, por conta de trabalho, e se recusaram, me deram uma guia para a curetagem apenas. E ainda falaram pro Henrique me convencer a ir, porque eu estava alterada.

No hospital, o médico quis me internar para tomar medicação e repouso. Quando questionei a diferença gestacional e a possibilidade real de ser um aborto, pela análise de ultrassom, ele não me disse nada. Quando questionei o que aconteceria se de fato se concluísse em aborto, ele disse que eu seria levada para a curetagem, e essa era a única opção. 

Como eu já tive outra experiência com aborto, sem curetagem, eu sabia que essa não era a única opção. Questionei, pedi um atestado médico, as medicações que ele disse que eu tomaria no hospital mesmo. Consegui apenas 5 dias para ficar em repouso em casa e fui embora. Em casa realmente fiz repouso e tomei medicação, era o que dava pra ser feito. Ficar internada não era uma opção. Nunca consideraria ficar num lugar estranho, sozinha e sem ter com quem conversar numa situação em que tudo que precisamos é ter calma e sentir acolhimento... E no meu caso ainda ficar preocupada com o Linus, que ficaria triste em casa sem entender nada. Cara, isso não é uma opção, ainda mais sabendo que eles iam me mandar pra sala de cirurgia, de qualquer jeito.

Fiquei em casa, pesquisei muito sobre aborto, sobre curetagem, li relatos, li textos da organização mundial de saúde, li até um livro sobre procedimentos cirúrgicos no sistema reprodutor feminino. E só consigo pensar que os médicos daqui não sabem o que estão fazendo.

Passado dois dias dessa ida ao hospital, meu corpo expeliu o que restava, sem dores, sem dificuldades, um pedaço inteiro do que eu acho que era a placenta. E nessa quarta feira, fiz outro ultrassom e tudo estava de acordo, útero limpo, já em período fértil. E esse é o normal. O corpo feminino está apto a expelir sangue,  coágulos e bebês, em condições saudáveis e naturais e procedimentos cirúrgicos são colocados como primeira opção desconsiderando a nossa natureza. Desconsiderando que todo procedimento cirúrgico traz também muitas reações desagradáveis e consequências que muitas vezes prejudicam o paciente. Por isso só devem ser feitas quando não temos outras opções. 

A curetagem por exemplo coloca a mulher em espera por três meses antes de tentar engravidar novamente, quando num processo natural, a mulher pode engravidar logo em seguida. Em alguns casos a curetagem pode ser mal indicada como em casos de endometrite e só piorar a condição de saúde. Sem contar o peso de uma anestesia, que é uma invenção salvadora, mas convenhamos que não é um procedimento suave e tranquilo... Muito pelo contrário, e se há possibilidade passar sem isso, eu com certeza escolho passar sem isso. Tenho certeza que eu ia ser daquelas pacientes que ia passar muito mal com os efeitos da anestesia e recuperação. Porque, se eu tomar café eu já fico claramente alterada, quem dirá uma anestesia.

É preciso dar um tempo, alguns dias, pro corpo responder, pra tudo voltar aos eixos e, com acompanhamento adequado é possível passar por isso sem traumas a mais, porque perder um filho já é um trauma por si só. No meu caso então, que já estava no meio do caminho pra expelir tudo, não tinha porque acelerar ainda mais o processo. Pelo menos pra mim, não há sentido. Eu sabia que ia dar tudo certo. E deu.

O Linus ficou confuso, ainda não processou o que aconteceu, diz pros amigos que ainda vai crescer um irmão forte na minha barriga, que vai nascer. Isso deixa a gente sem chão... Ele parece querer muito esse irmão. E mesmo vendo o sangue, o embrião, ele ainda não assimilou... E de fato não faz muito sentido, não é o caminho que a gente espera... E ele continua na espera desse bebê.

Sobre passar por abortos de repetição, cada um traz uma experiência diferente, a primeira de sofrimento e incompreensão. Essa de tomar controle de mim mesma diante a postura médica e estudar, entender, me defender. Nem sobrou muito tempo pra lamentar, minha energia foi quase toda a buscar mais e mais informações para fazer o que eu acredito ser melhor pra mim, para a minha família. Não que não tenha sido triste, mas ainda que triste, eu consegui olhar pra tudo isso com mais clareza, e isso tornou o processo mais fácil emocionalmente, comparado ao primeiro.

E também ter essa segunda experiência me fez repensar sobre duas outras menstruações fora de padrão que aconteceram ano passado, me questiono se não foram outros abortos, muito precoces que não identificamos. Eu sinto que sim, apesar de não haver exames clínicos que comprovem.

E agora entramos em um novo momento que eu nunca pensei que fosse passar, ir em busca de conhecimentos sobre a fertilidade de nossos corpos, analisar tudo e controlar meus ciclos dia a dia, fazer exames, essas coisas que a gente nunca pensa que vão acontecer com a gente.

Mas de qualquer forma, penso que podemos ganhar com isso, ganhar mais conhecimento e quanto mais conhecimento sobre nós, diante da medicina, melhor ficaremos pra nos posicionar, nos defender... A impressão é que, em quanto mais médicos passo, mais eu confirmo o quanto eles não são bons em explicar o que acontece com a gente, nem sabem lidar com os questionamentos e com certeza tratam mulheres de maneira desrespeitosa, ao resumir todos os nossos embates e questionamentos como raiva, frustração, nervoso, e qualquer outro sintoma emocional derivado de alterações hormonais. Porque assim parece, mulher doida, vc está frágil porque está na tpm, ou passando por aborto, ou porque está grávida... Ou simplesmente porque mulheres são assim e não vamos discutir com vocês.

Pra que raios uma mulher quer questionar tanto né? 
Só indignação com os médicos. Com a medicina... Mas isso é discussão pra outra hora.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Homens são todos iguais... São mesmo?

São todos iguais, ou são todas as mulheres iguais a terem as mesmas péssimas expectativas deles? Ou o extremo oposto, a super bajulação por eles fazerem nada menos do que deveria ser obrigação deles como indivíduo perante a família?

Uma coisa muito comum de ser ouvida como queixa sobre maridos e companheiros é que homens são todos assim... Eles não se preocupam previamente em ter comida na mesa e reclamam já na hora do almoço que não tem comida feita, eles acham que podem ficar dias sem fazer nada em casa porque fizeram uma instalação de armário, arrumaram uma bagunça do quintal ou coisa que o valha. Eles não percebem quando as cuecas estão em falta na gaveta até o fatídico dia em que, após o banho, não tem sequer uma cueca limpa na gaveta e nem no varal, não percebem quando a dispensa está esvaziando e não sacam a criança manhosa porque precisa de atenção, seja por fome, tédio ou sono... E ainda reclama pra mãe ir lá fazer algo a respeito... Homem é tudo assim, precisa chegar do trabalho e dar uma relaxada, enquanto a mãe, que também trabalhou o dia inteiro precisa sair correndo em meio a preparação do jantar pra ir buscar a criança voltar e ainda terminar o jantar - e fazer ainda alguma coisa a respeito da criança manhosa. E claro, se a criança é manhosa, é culpa da mãe.

Essa história é muito, muito comum.

Mas não é exatamente essa coisa de homem é tudo igual que é a verdade... Acho que a verdade é que as mulheres permitem essa posição machista, os homens são acomodados por serem criados pelas famílias dessa forma ( porque convenhamos que homens adultos de hoje dificilmente foram criados muito diferentemente, os pais eram exatamente esse modelo de pai que acha que ir trabalhar fora basta, e aceito pelas mães). É um hábito rançoso e mal resolvido.

É preciso um bom senso, uma vergonha na cara desses homens de ver que isso não é bem assim. E coragem das mulheres de bater de frente sobre essa questão.

Não é justo uma família ser concebida conjuntamente e depois tudo pender pra um lado só. São dois adultos com capacidades iguais de trabalhar e pensar juntos a rotina que é dos dois. E não só rotina, mas valores, responsabilidades e alegrias também.

Se você, mulher, parar para listar todas as atividades que você faz, e todas que o seu companheiro faz, provavelmente vai ver que você tem muito mais responsabilidades e trabalho do que seu companheiro e vai ver também que ele possui mais tempo de recreação para si mesmo do que você. E se vocês tem filhos, não precisa nem lista, você sabe que o que eu digo é um fato. Salvo raras excessões.

Uma coisa que eu acho que pode ser feita em qualquer família é listar tudo que é feito na rotina de vocês e alternar quem faz o que. É importante, como cuidado próprio, como decência humana, você saber se virar sozinho, saber cozinhar, manter alguma higiene na casa, saber lavar a própria roupa, minimamente. Muitos homens não lavam roupas ou fazem comida, mas é preciso deixar que eles façam, nem que seja a força, pra eles valorizarem o que eles tem em casa, na vida... Mas principalmente pela esperança de brotar ali, uma sementinha de satisfação própria em ir construindo em si um ser independente e pró ativo com sua própria vida... Porque sério, a casa é dos dois, a comida é dos dois, tudo e compartilhado, então as tarefas, com seus lados bons e ruins, deve ser dividida. Cozinhar pode ser uma descoberta prazerosa pra quem nunca sequer tentou cozinhar, por exemplo.

Permitam que as funções mudem, que o companheiro seja companheiro de verdade e cobre por isso. Quando vocês decidiram se unir como família, como pai e mãe, decidiram juntos. Então caminhem juntos, pelo bem dos dois, para que os dois se valorizem mutuamente!

E para os pais, preciso dizer, a única coisa que você não pode fazer pelo seu filho é amamentar. De resto você é capaz de tudo, então se vire e faça tanto quanto sua mulher. Dê banho, leve a escola, faça a comida dos pequenos com antecedência, lave as roupinhas, troque as fraldas, verifique se falta alguma coisa pra comprar, brinque, leia historinhas, coloque pra dormir, leve ao médico, vá à reunião da escola! E se sua mulher ajeita a mesa pra você comer, tomar café que seja. Faça por ela tambem. Se você não o faz, tá faltando vergonha na cara. E não me venha com essa história de que trabalha fora... Alguma hora livre existe, tenho certeza.

E, se você homem, faz tudo isso, que bom, você faz o que é sua responsabilidade também! Mas não merece nenhum parabéns por isso, só no dia em que todas as mulheres receberem por fazerem tudo que elas fazem diariamente.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pensamentos sobre a vida dentro e fora da cidade grande

Eu estava agora lendo um texto que falava na questão de como alguns assuntos se tornam tão complicados para serem conversados com os filhos: morte e nascimento são os assuntos que parecem mais assustar os pais.

Fiquei pensando se quem mora numa fazenda tem as mesmas questões, ou se essas questões tem o mesmo peso.

Pensa comigo, uma criança que cresce num lugar onde ela convive com animais, com certeza vai acompanhar todas as fases de desenvolvimento dos bichos. Vai ver ovo virando pinto, virando frango, virando galo ou galinha... vai ver eles cruzando, um em cima do outro com movimentos estranhos e tudo mais e vai ver o ciclo continuar... vai ver o ovo sair da cloaca e assim vai. E vai pegar esse ovo, que ele sabe que pode vir a ser um pinto... mas vai comer, porque sabe que é comida, que faz parte da vida comer, assim como vai ver algum outro bicho invadindo o galinheiro pra roubar ovos.

Vai ver os pais matando o frango desde pequeno, vai ser normal pra ele conviver com o nascimento e morte. E não só dos animais que criam, mas de todos que circulam por lá... minhocas, insetos, pássaros, ratos. Vai ser normal lidar com corpos mortos, enterrar, ver aquilo se tornar alimento pra outro animal ou voltar a virar terra.

Vai ver animais mais próximos se procriando, vai ver um bezerro nascer no tempo dele e indo mamar, de um jeito natural e longe de aparelhos médicos, sem a idéia de tortura que existe hoje em dia em relação ao parto.

Também vai ver outros jeitos de nascer, de sapos, de peixes, de insetos...

Eu honestamente acho muito rica essa vivência que a cidade não tem. Queria ter vivenciado isso, até hoje tenho vontade e estou em busca disso. Acho digno conseguir lidar com toda a vida que envolve e a minha, se como o que como, sinto desejo de vivenciar todo o processo, seja vegetariano ou não. Quero ver a semente virar verdura, assim como quero ser capaz de cuidar da minha galinha e meus ovos, dos peixes e tripas. Quero poder aproveitar tudo e fazer do descarte um reaproveitamento de energia, quero me sentir parte da natureza, interferindo de maneira a não deixar lixo, não estragar o equilíbrio das coisas.

Não acho que a cidade seja ruim também... pra quem vive na cidade, temos muitos benefícios também, prezo muitos deles. Mas os nossos de pessoas da cidade geram tanto lixo que ultimamente tenho me sentido meio mal de pensar a respeito.

Viajei e perdi o fio da meada....

E já é hora de pegar o menino na escola.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Seu filho briga pra dormir? Dorme mal?

Comenta aí pra me consolar sobre sua história...... depois quando me restar alguma energia eu discorro mais sobre nosso caso... vê se vem algum bom humor nesse momento! rs

Pra ter noção, são 2h de luta pra ele dormir e se nega a dormir por tudo tudo... ontem gritou por mais de meia hora, inclusive de madrugada. Hoje enfiou a mão na goela até vomitar.

E a paciência?!

São mais de 2 anos nesse ritmo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Você dá conta do marido?

Eu sempre leio isso nos comentários de outras blogueiras, quando o assunto tarefas e tempo vem a tona, e isso me causa um estranhamento enorme. E não entendo de verdade... eu suponho coisas, mas não entendo.

Se uma pessoa casou, decidiu ter filhos juntos, uma vida juntos, não seria óbvio viverem juntos como um time  e não uma pessoa dependendo da outra?

Acho que existem acordos e designações de tarefas, porque isso também é parte da idéia de sermos um time... mas um dar conta do outro, isso não entre na minha cabeça, acho meio absurdo, admito.

Por exemplo aqui em casa...  a divisão mais geral ficou assim: meu marido trabalha pra pagar as contas e eu fico em casa cuidando do Linus e da casa... e se der eu invisto meu tempo que sobra, que ainda não sobra, em trabalho. Mas isso não significa que o Henrique fica esperando que eu faça tudo em casa e que todos os cuidados com o nosso filho seja só meu, muito pelo contrário, ele faz questão de fazer tudo junto, afinal, moramos juntos, temos um filho juntos, escolhemos essa vida juntos. E acrescenta aí o fato de ser um homem autônomo que sabe se cuidar também faz muito bem pra vida... e eu acho broxante um cara que não sabe cozinhar/ limpar a casa/ cuidar do próprio filho. Acho mesmo. O Henrique poderia facilmente ficar um final de semana inteiro sem mim por perto e ele faria tudo sem nenhum problema... a gente só não faz isso porque nós gostamos muito de estar juntos sempre, já que durante a semana nosso tempo junto é muito pouco. Mas eu sei que caso precise, ele sabe cuidar muito bem dele mesmo, da casa e do Linus. Eu não tenho que dar conta dele, nem ele de mim. Na real, tá mais próximo dele dar conta de mim, já que eu não trabalho, mas nada que não seja possível de acontecer, porque eu tenho total capacidade de trabalhar também.

Esse lance de dar conta do marido é muito machista. E não precisa ser, a não ser que as pessoas que vivam assim estejam satisfeitas. E tem gente que curte mesmo ser dona de todas as tarefas, só acho que não se deve jogar a culpa no marido, já que o desejo de que ele não faça nada não é só dele.

Pra quem não curte, o negócio é botar o marido pra fazer mesmo que ele faça errado, que faça de outro jeito, mas deixe, não opine a não ser que ele vá fazer alguma merda que possa colocar a saúde em risco, afinal a vida doméstica pode ser muito perigosa, com cacos de vidro, gases sufocantes nas misturas químicas de produtos de limpeza e fogo e cortes na cozinha. E agradeça, elogie e dê mais tarefas se ele estiver de bobeira coçando a barriga. E claro, deixe ele cuidar do filho sozinho, mande ele sair sozinho com o filho, mesmo que bebê, se já estiver comendo comida/ papinha em passeios curtos, ou deixe eles em casa e saia você pra espairecer. Aposto que muito desse conformismo machista vem muito das mulheres também, afinal, fomos educadas a sermos assim.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A bola roubada

A gente tinha uma bola que ficava no quintal, nunca guardei dentro de casa... daí que um dia senti falta dela e imaginei que o menino vizinho tinha pego ela, afinal já fazia alguns dias que ele estava pulando o muro que junta minha casa com o terreno baldio aqui do lado... mas não quis falar nada sem ter certeza e de qualquer maneira, era só uma bola... eu estava mais preocupada com o menino.

Mas antes de continuar a história, vou falar sobre esse menino. Ele tem uns 9 anos de idade e tem uma irmã de uns 6 anos de idade, eles moram numa casa onde moram 26 pessoas, todos funcionários de um restaurante aqui perto, a maioria deles são homens e eu nunca vi a cara da mãe deles. A casa é um lugar onde ninguém limpa, cuida ou minimamente tenta manter organizado, já vi um dos caras jogando bituca de cigarro pela janela, já vi todo tipo de lixo no quintal deles, dá pra ver a distância o lixão que eles acumulam. Nunca vi ninguém conversando ou brincando com essas crianças.

Continuando... daí que sábado estávamos voltando pra casa a tarde e eu vi o menino e a menina brincando com a bola no quintal deles, daí era fato, ele tinha pego a bola, bom roubado a bola mesmo. Daí decidi que ia falar com ele.

Na segunda quando daí pra levar o Linus na escolinha, eles estavam no quintal e eu chamei e disse que queria falar com ele, daí ele quis empurrar a irmã, eu insisti e ele veio. Daí eu disse que sabia que ele tinha pego a bola, que ele podia pedir, que a gente emprestava, que não era problema... ele só soube insistir que não foi ele, que foi outro menino, então eu disse que não importava quem  foi, mas que era pra ter pedido, pra ele dizer pra quem pegou, que da próxima, pedisse, que não tem problema nenhum em pegar emprestado, mas pegar assim não podia. Enfim... acho que não cheguei em lugar nenhum... e fiquei pensando nisso tudo...

Pensei no quanto ele deve estar acostumado a receber a culpa por qualquer coisa, que é automático pra ele tentar se esquivar, que ninguém nunca deve mesmo conversar com ele e acreditar na capacidade dele de explicar e escutar os fatos e fazer acordos... e também pensei na minha falta de jeito, na minha defensiva de não fazer nada se vejo a outra pessoa incomodada com alguma coisa que fiz... porque sério, eu poderia ter insistido, ter sido mais afetuosa, mas eu senti que o menino estava desconfortável e eu só queria sair correndo e me sentindo mal por não ter resolvido alguma coisa e só ter sido mais alguém que o acusou de ter feito alguma coisa errada.

No fim das contas ele não assumiu que a bola estava com ele, nem devolveu obviamente. Eu também não pedi de volta, e o assunto ficou por isso mesmo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pelo parto com amor.

Tá rolando toda uma movimentação a favor do parto ser uma decisão genuína da mulher... que eu acho muito certo! Daí resolvi falar disso também, porque isso é um dos assuntos que mais marcaram minha vida. Eu que nunca pensei sobre isso, depois de grávida, só sabia pensar, conversar e ler sobre isso. Não quero ser militante, não quero ser pregadora de verdade alguma, aliás, acho até difícil lidar com tudo isso porque nas minhas decisões, sou muito convicta, mas também sei que a minha escolha é a minha e de mais ninguém, que não cabe a mim dizer o que é melhor para o outro... mas não há como não tentar espalhar a sementinha de nossas próprias verdades por aí.

Já me deparei com várias situações diferentes, de pessoas que eu queria poder ajudar ou interferir, mas não cabe a mim mudar e sim a pessoa estar disposta e as pessoas mais próximas também e esse é o grande calo desse assunto! Porque não é dizer que tem um artigo medico que diz que o normal é melhor e o caramba sendo que a experiência de vida daquela pessoa a leva pro extremo oposto. É preciso muito mais que um relato de parto e alguns artigos médicos pra transformar uma pessoa. É preciso que exista uma acolhimento maior, é preciso que as pessoas que cercam a vida de uma grávida estejam apoiando com amor, que o pai da criança esteja disposto a passar pela experiência junto, é preciso que a mulher se sinta cuidada e amada, que seja encorajada com boas energias todos os dias da gestação... é o que eu acho.

Por exemplo, tenho uma prima que raramente vejo, mas a vi grávida e soube depois que ela teve uma cesárea agendada, e eu me lembro dela comentando bem daquele jeito que médico fala "ah, vamos ver, quero normal, vamos ver se dá"... opa pera lá, não seria o caso, de quem realmente acredita nisso dizer "vai ser normal, não tem porque não ser, estou tão bem, estou esperando o melhor", bom pelo menos era assim que eu pensava e assim tive meu filho pelas vias naturais. Bom, não sei bem o que rolou com ela, mas ela com certeza não foi envolvida a favor da causa pelo médico, pela família, pelo marido e por ela mesma... por sermos da mesma família, eu sei que ela ouviu que a cesariana é melhor por muitos motivos e motivada pelo médico, assim o fez sem grandes questionamentos. Não to crucificando não, mas é isso que acontece com a grande maioria das mulheres, não é mostrado a elas todas as possibilidades e sim só um lado da história, que é sempre o lado de que vai ser mais rápido e indolor. (que na real depende da maneira que se vê, pra mim, por exemplo, uma cirurgia seria uma dor profunda). Mas isso também acontece por um outro motivo, que é a construção desse mito, o que me faz lembrar da minha vizinha, que teve seu filho em hospital público, em um parto normal... onde o "normal"é na verdade um abandono da mulher em trabalho de parto, onde todas são deixadas sozinhas cada uma em sua maca com seu sorinho esperando os 10 cm. Parece mais um campo de concentração de tortura a parturientes! Não é a toa que as mulheres tem tanto medo desse momento. Não é a toa que essa minha vizinha queria tanto uma cesárea, ela que chegou no hospital sem dilatação, com a bolsa estourada, teve o parto induzido, sem acompanhante, com outras grávidas em condições similares, sem saber o que acontecia com o próprio corpo, sem alguém que a acalmasse, sem que pudesse caminhar, comer, gritar, sem intimidade, sem carinho, sem nenhum esclarecimento e só sendo tratada de maneira invasiva com hormônios artificiais e exames de toque dolorosos um atrás do outro pra na hora final um homem qualquer pular em cima da barriga dela pra expulsar o bebê pra fora! Veja bem, isso só pode ser terrível  e foi aí que as cesareanas ganharam força! É todo um sistema machista que não tem o mínimo olhar para o momento delicado que é o parto. Agora quem convence essa mulher que o parto pode ser lindo? Eu ainda não consegui! rs

E sabe o que eu acho? Eu acho uma bela merda que seja assim... eu penso no adolescente que sonhou em ser médico, que estudou que nem desgraçado pra passar no vestibular, que aguentou tanta coisa na faculdade e chegou finalmente ao seu consultório pra mal olhar na cara da paciente e não esclarecer absolutamente nada e se achar no direito de decidir uma coisa tão crucial na vida de uma mulher. Será que era mesmo esse o objetivo? Acho que o nosso sistema de educação, de saúde, a maneira que se desdobram as relações familiares e socias nos desviam dos nossos sonhos e nos deixam tão desgastados que lutar pelo sonho é muitas vezes uma luta que abrimos mão porque é mais fácil, mas rápido, porque "precisamos" pensar em nós mesmos, em ter cada vez mais coisas.... mas todas essas coisas se tornam tão vazias, que quando nos damos conta, esse vazio já tomou conta das nossas vidas, tudo parece não ter mais importância! É um perigo! Precisamos rever tudo que acreditamos e nos relembrar todo dia daquilo que queremos semear, daquilo que queremos pra nós e para os outros, e nunca deixar isso se perder e é essa a nossa causa do parto, de espalhar informações para que cada vez mais mulheres tenham condições de terem partos coerentes com seus desejos mais íntimos, de maneira clara, conhecendo todos os lados da verdade! Porque o justo é que nós mesmas possamos decidir o que é melhor pra nós e para nossos filhos.

sábado, 21 de abril de 2012

Blogagem coletiva sobre infância e consumismo


A convite da Paloma
Com atraso, mas está aqui!
Escrito pelo Henrique (o pai) ;)

Brincando de ter
Lutar contra o consumismo  é tarefa árdua de vida inteira, contra vícios e confortos.

Ele é cultural antes de tudo, uma escolha feita por nossos pais para nós   e consequentemente nossa para nossos filhos. Selamos pelos nossos pequenos o contrato com esse modo de vida, na esperança de garantir à eles uma vida com segurança e conforto. Ninguém tem direito de condenar isso.

A responsabilidade dos reguladores do consumo é enorme tratando disso.

Desde o momento que a publicidade deixou gradualmente de ser informativa para ser emocionalmente apelativa, as crianças viraram alvo fácil. A expressão “mais fácil que roubar doce de criança” deveria ser mudada para “mais fácil que vender doce pra criança”...

Desde que o bacuri aqui de casa nasceu, percebi como ele é puro coração. Toda criança é, para o bem e para o mal. Se ela for atingida certeiramente por imagens alucinantes associando uma canetinha qualquer à aventura diversão ou status social, ela vai acreditar nisso. Consequentemente os pais serão atingidos, pois o sentimento de “prover” é imediato (o mesmo sentimento que nos leva à assinar metaforicante o contrato com consumismo, rs)... não que eu ache que seja impossível negar, mas ouvir o filhote pedindo algo, mexe em algo profundo e ancestral dentro dos sentimentos familiares... São muitos sentimentos em jogo, das crianças e dos pais. Isso é muito sério.

A propaganda no geral opera na lógica do “você é o que você tem”. Isso sendo inchuminado na cabeça de uma criança, que PRECISA ser socialmente aceita, por ser dependente e frágil , é no minimo desastroso. Com isso não é de se estranhar que “ter” virou em si uma diversão. Brincar com o objeto desejado não é objetivo. Comprá-lo basta. Só que essa é uma diversão muito curta e rápida, que precisa de repetidas doses, num circulo vicioso de carência sem fim.

Um adulto supostamente tem condições psicológicas de lutar contra isso, mas uma criança não. Ela precisa demais da gente para se dar ao luxo de negar nosso modo de vida, ela não tem essa independência.

Sob pretextos esdrúxulos como “liberdade de expressão” a publicidade luta contra as tentativas de regulamentar sua abordagem nos pequenos. Não é a liberdade de expressão que está em jogo, mas sim a responsabilidade de expressão. Vivemos teoricamente num estado de responsabilidade social,  os comunicadores trabalham sob concessão estatal. Eles têm SIM responsabilidade sobre seus conteúdos e sobre a formato deles.   

Outro argumento comum é que a responsabilidade é dos pais. Que devem educar seus filhos à consumir o necessário à uma vida confortável, sem se render aos inofensivos apelos da propaganda. Isso é absurdo. A propaganda hoje é viral, ela se espalha por qualquer midia disponível. Para impedir que o Linus deseje, sei lá, um liquidificador do correspondente futuro ao Ben 10, eu precisaria criar em torno dele cordão de isolamento parrudo, mantê-lo sob forte vigilância, impedi-lo inclusive de conversar com os colegas, selecionar seus amigos, já que a propaganda é tão cultural que praticamos ela diariamente, pagando por isso ainda por cima. Essa vida num faz sentido para mim. Não acho aceitável manter meu filho numa bolha moral só porque os comunicadores estão dispostos à qualquer coisa pra vender a mais nova quinquilharia.

Para se imunizar de tudo isso só resta tapar os olhos, os ouvidos e a boca.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Nós e os pediatras

O Linus já vai completar um ano e meio e ainda não temos nosso pediatra... tem que ser do convênio porque não temos como bancar um fora.... a princípio, quando ele era bem recém nascido a gente ia na casa de parto e as enfermeiras nos tratavam muito bem, pegavam ele com carinho, me acolheram quando eu chorava de dores enquanto amamentava e sofria com a mastite. Depois eu arrisquei ir no posto perto de casa, daí disseram que tinha que ser um outro porque o número da casa onde eu morava já era pra ser no outro posto, se fosse um quarteirão antes podia ser lá, mas onde eu morava já não podia.... vai entender, daí eu fui e o médico era um grosso que não explicava absolutamente nada, media, pesava e era isso, mandou eu largar ele chorando porque com 6 meses ele não sentia fome durante a noite e não era pra dar peito nem nada, claro que eu nunca mais voltei. Também tentei uma alopata do convênio, bem pertinho de casa, a louca puxou a pelinha do pintinho dele que fez ele chorar e inventou que ele tinha um refluxo que não golfava e que ele tinha que tomar um remédio superforte que ela tirou da gaveta na mesma hora.... claro que eu nunca mais voltei. Daí a gente foi pra uma homeopata, lá na Av. Paulista,  que era até que perto, porque a gente morava no ipiranga, daí ela não fala muito, não enche o saco, não inventa história e ficamos nela... por sorte o Linus nunca ficou doente de verdade, então até que estava tudo bem. Perto do aniversário dele, ele teve roséola e uma febre absurda e ela estava reformando o consultório, fomos num outro homeopata perto de casa, foi até que atencioso, medicou, mas medicou errado, achou que era dor de garganta e o Linus com febrão, claro que ignorei tudo e mandei ver na dipirona.... 40 de febre eu não consigo esperar pra ver o que acontece não... daí voltamos agora na de antes, lá longe, porque agora moramos na zona norte, e eu tenho que sair 2h antes pra chegar lá a tempo, sem pressa. Daí eu falo pra ela que moro longe, que está difícil fazer o percurso e falo que quero trocar de médico por isso, se ela me indicaria alguém, se eu preciso levar a ficha e ela surta! A velhinha que mal se mexe, das mão geladas que sempre fez o Linus chorar, surta como uma criancinha! Eu fiquei indignada! Ela começou a falar "vai lá, pode ir, não precisa levar a ficha dele,  pode ir lá porque eu tenho paciente que vem de Roraima pra me ver, vai, pode ir no outro médico e leva o exame pro outro médico".

Fiquei em choque! Sério! Eu não to há 2h na rua com um bebê, no sol, no metrô cheio, com calor, cansada, com o braço formigando de carregar ele pra ver uma velha que já tá com o pé na cova dar um chilique feio desses! E pior, ela nem sabe meu nome, nunca lembra da gente, nunca tem a menor delicadeza com o Linus, a consulta dela não dura 5 minutos! Que absurdo!

E continuamos na busca.... alguém indica alguém? rs